Com os casos recentes de crianças abandonadas em caçambas, calçadas e caixas por aí, fatalmente o assunto adoção de crianças rejeitadas vem à tona. E nesse momento muito se incentiva a adoção, que é uma linda atitude mas que precisa ser bem poderada para não causar mais sofrimento.
Eu achava que nada podia ser pior na vida de uma criança do que ser rejeitada pelos pais, até saber de inúmeros casos de crianças que aguardam a adoção e que mais uma vez, após conseguirem uma família, são rejeitadas várias e várias vezes por esses novos pais.

Como quase sempre antes de começar a escrever um post eu faço uma pesquisinha, obviamente que minhas buscas por informações não são científicas mas nos dão uma boa noção desses casos, os quais descobri horrorizada que não são raros.
Raro e inédito foi o pedido do promotor de Justiça do Ministério Público de Minas Gerais Epaminondas Costa, em um caso de adoção, e que causou polêmica inclusive entre os juristas. O promotor pediu a reparação de danos morais causados a uma menina de 8 anos, adotada e devolvida sem a apresentação de uma justificativa, através do pagamento de uma pensão até que a criança complete 24 anos. Além de indenização de 100 salários mínimos com o objetivo de atenuar os efeitos do ‘novo’ abandono, arcando com as despesas de um tratamento psicológico.
O problema é que embora a devolução sem sombra de dúvidas cause traumas à criança, o período de guarda provisória não causa responsabilização jurídica. UM ABSURDO da lei, e isso porque existe um tal ‘teste de convivência’. Acompanhe todos os detalhes do caso nesta matéria da Folha Online.
Leiam esses dois depoimentos ilustrativos. O primeiro é da assistente social Luziclaire Silva, de Campo Grande, Mato Grosso do Sul e o segundo de um adolescente de 13 anos que foi rejeitado. Ambos encontrei em uma bela matéria da Revista Época (para ler a íntegra clique aqui).
“(…)As justificativas dos pais para a devolução, por sua vez, chocam pela banalidade e pelo descompromisso. Uma menina abria a geladeira de noite sem pedir licença. Outra insistia em usar o nome antigo, recusando aquele dado pelos pais adotivos. Um garoto foi mandado de volta para a creche porque a nova mãe, que não podia ter filhos, conseguiu engravidar. Os pais chegam aqui responsabilizando a criança pelo fracasso da adoção. Como se a culpa fosse dela ou uma herança da família biológica (…) ” – Luzicleide
”Minha mãe fugiu de casa com meus irmãos e meu pai foi atrás deles. Fiquei sozinho lá em Roraima. Acabou a comida. Um vizinho me levou com ele para uma fazenda. A dona me adotou, mas acabou me devolvendo. Depois apareceu um advogado, e eu fiquei feliz por ter uma nova família. Mas eles me devolveram também. Meu maior desejo é descobrir por quê. Eu tentei ser legal.” – adolescente (não identificado)
Me desculpem agora misturar cachorros e crianças, mas em meio essa triste situação não pude deixar de lembrar do filme Marley & Eu, que basicamente conta a história de um casal que, para experimentar a paternidade, compra um filhote de labrador da pá virada. O cachorro é um furacão Katrina: muito hiperativo, destruia tudo na casa, comia jóias, latia a noite toda, atacava outros cães e mesmo assim não foi sequer cogitada a devolução do animal pelos donos que, após terem seus bebês-humanos, sentiam a responsabilidade moral e afetiva que tinham com aquele cão. Particularmente acho o filme chatinho, mas o que vale aqui é a lição que ele nos deixa.
Pessoas não são coisas compradas no shopping e que se não gostar devolve-se para a loja. Mas para muita gente deve ser difícil ter claro esse conceito moral e afetivo em tempos de consumismo exacerbado em que os desejos individuais são colocados a frente de tudo e de todos.
O que digo com isso é que se os pais adotivos não gostam de determinada atitude da criança, não se esforçam para educá-la, porque dá trabalho e esses pais, em sua maioria, pensam equivocadamente em ‘caridade’ quando adotam, e quando não se sentem 100% ‘recompensados’, simplesmente devolvem a criança, pois inclusive como citei acima há amparo na lei para isso.
E assim vão tentando adotar outra criança, e outra e mais outra como se fossem encontrar alguma perfeitinha que apenas os agrade sempre, sem cogitar a ideia de que filhos também são humanos e nos desagradam tanto quanto nos fazem sorrir.













